terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Quase haiku


10
A luz,
o silêncio,
a pedra
janelas sobre o verde
janelas sobre a alma
o grito de prazer
as marcas no corpo e por dentro
morangos eróticos em string húmido
amar-te mais
prosseguir contigo
quero

11
O som puro das coisas
a voz redonda
memórias doridas de uma morte criança
espaços dentro do corpo
sémen e cal
palavras com dor por fora
lágrimas
a pedra lança os dedos para a luz

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Lava

9
São duas que a habitam puxando o corpo branco
e a gargantilha de prata e lava viva.
Imperceptíveis sombras esguias na alma
penduradas e de dias doridos se alimentam.
Almas lágrimas e riso de dentro.
Algum calor aflora.
Êxtase e a viagem torna-se anã e finda de si.
Tudo não partilha, apenas uma gota.
Que pouco e a sede tanta e a boca seca.
Que pouco e o tempo tão pequeno.
Voraz.
Cavalga o Sul, horizonte outro.
Lava. Menina.
Viva. Transfigura-se é nua que fica.
Recusa roupa e rasga-me o eu.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Nagiko II

o campo é verde tela, a pálida Sei Shönagon relê passagens do seu livro de cabeceira, escolhe corpos para escrever caligrafias de desejo da literatura e do amor que irão pontuar a paisagem ou,
quando acordo, o mar de sémen maresia salgada empurra-nos para praias de pele e gosto e cheiro o teu cheiro cavalgando rins que dançam e sorrimos ou,
em silêncio cortamos o tempo como um baralho de cartas e fazemos naipes de suor ao perde ganha até que amanheça em Nova Deli e as cidades do Ocidente não cheguem a acordar ou,
em plágio escandaloso desta fita que te conto, caligrafamos o desejo e os olhos encurtam a distância que nos une e quando chegamos às gares trocamos sinais em abraços pungentes e o transe de te dar a mão é texto que não está escrito ou,
encontro as sílabas de saudades quando te percorro no teu labirinto para logo as perder no planalto das coxas onde me sento para beber e é infindável este caminhar que me não cansa ou...

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Nagiko I

Outra maneira de te contar o Livro de Cabeceira
(texto transgressor em actos e duas personagens); podia ter dito que outra maneira de te contar o livro de cabeceira era escrevermos com o meu um texto no teu corpo transgressor(dido) e no meu transgredido(ssor) e trocarmos todas as transgressões que ainda não sabemos que são e não são ou,
imagina que começo pelo pé e aí pinto pequenas sílabas de saudades que vão escorrer até ao calcanhar e perder-se nos linhos; com um gesto breve, mão não totalmente aberta e preguiçosa, recuperas duas ou três que escondes não sei onde, que as procure, não estão longe e meto-me ao caminho. Vislumbro um rio, um delta mas uma boca acena-me e entro nela. Fico por lá longo tempo com a mente no mar de saudade que perdi subitamente. Lateja-me o sangue nos teus seios e a penugem do ventre é areia onde me deito ao som da língua no meu sexo e adormeço nesta música ou,

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Sul

 8
As tardes são o melhor destes dias,
deitados no granito,
a ver correr as cores e as nuvens à procura do Sul,
e o meu, no teu corpo, da mesma rota.
Efémeros caminhos da terra em tempo de histórias contadas à noite: constelações de lendas azuis e até amanhãs aos gatos que vêm dormir enroscados, no fim do cobertor de papa.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Neblina

7
No princípio do dia, marcas de caramelo
fino no tudo quieto do ar parado:
papel branco para desenhar.
São os pássaros que rasgam os primeiros traços
no sombreado das árvores, como
no primeiro dia quando a esteva se veste de baba.
Nestas horas tudo é distante e longe,
gritos repercutidos nos laranjais de névoa,
por cima de medonhos vales de águas férreas
e tantas pontes.
Quem as atravessa?

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Sal

6
Nas hortas do mar, os pés dos agricultores
são talhados em pedra antiga, gretada pelo tempo.
Pedra prenhe de recordações nas calças
enroladas no regaço dos dias.
São tecidos, ao longe, nos rectângulos rigorosos
desenhados na água.
Limites do sal e do verde,
caminhos estreitos por onde se corre
carregado de branco.
O mar aqui, entra de mansinho e
afaga as geometrias.
Saudação milenar de gestos repetidos
na água e no homem,
Egiptos na Ria, em pirâmides de branco.
Pela tarde, doura-se a cal pousada nos alfobres e
a luz, enche a flanela de um gesto vigoroso
fixado nos postais.