quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Silêncio



Le Silence n’est pas un Oubli.
Não coloco o silêncio contra as palavras. Há monossílabos tão ruidosos como o barulho do camião do lixo na noite. As falas mais silenciosas são quando as letras gritam luz; são as falas de alguns textos sagrados, as falas de alguma poesia, o risco do grito do mocho na noite quieta. Oposto ao silêncio está o movimento da mente, a ditadura da mente. A meditação é o Silêncio quando o fluxo ruidoso do pensamento cessa e fica a espessura surda do vazio. Não é um silêncio calado mas um silêncio parado. Numa paisagem nocturna no meio do campo, ouvimos o silêncio mas é um silêncio que nos é exterior,  elaboramos e pensamos sobre ele e dizemos: gosto tanto deste silêncio. Ao dizermos isto não estamos em silêncio, somos espectadores gritantes do silêncio. Em meditação, somos o silêncio. Focando a mente num “objecto” de meditação, deixamos rarefazer progressivamente os pensamentos criando espaço. Às tantas, esta dualidade daquele que pensa e não quer pensar e do espaço que o não pensamento faz crescer, esta dualidade deixa de existir e aí, sim, silêncio, não esquecimento.
Morte-vida, cessação do eu-ego, anulação do corpo, descansar no vazio se estas palavras ainda fazem sentido nesses territórios.
Le silence est une clairvoyance.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Deserto


Cortar todas as pontes
Dizer palavras irreversíveis
Instalar o conflito no corpo cristal
Empurrar o ego e o outro
Ocupar o espaço, todo o espaço das frases possíveis
Calcular a agressão sempre devastadora e chorar o fel
Não querer ser feliz
Não dominar o equilíbrio e desenhar tempestades na instabilidade
Matar a racionalidade e tudo à volta
Alimentar o deserto
Deserto.

sábado, 24 de setembro de 2011

O que não lerás

I
Uma energia criativa congrega-se subitamente
e enche espaço de entropia possível.
Palavras.
Listas azuis e amarelas no verde tomilho.
Sexo redondo por cima da água prata.
Sons.
Imaginar o que é preciso para o encontro destas matérias.
Imaginar o trabalho de todas as forças que concorrem
para este raro encontro no tempo.
Desafiar todas as causalidades e todas as partículas.
Descentrar-se, um evento raro.
Encontrar no lugar do outro o seu lugar.
Pleno e aberto.
Total, com a individualidade intacta.
Difícil conjugação estelar.
Poeira.

II
Este sofrimento que se instala como um paludismo recorrente.
Mosquito de água nos olhos.
Uma solidão cristal.
Casulo, borboletas ausentes.
Tropeçar no caminho para dentro e aquietar o sangue.
E o tempo.
Uma resina escorre nas alamedas da luz.
Uma neblina âmbar cavalga o Sol.
Emagrece o ar da manhã e não vejo barcos.
Orla.
Voltar a entrar pela porta entre os olhos no patamar cúbico.
Não dizer.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Aurora

16
Ficar pela noite,
quando o último fio de luz luar árabe
se soltou do céu e o teu olhar
escorregou nos olhos, ficou tenso nas mãos, gritou de cor na noite, espalmou meu corpo contra mim.
Era a hora de morder a terra,
de acontecer ficar e escrever palavras
líquidas nos contornos da madrugada.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

A Noite II

Longe, a Noite desfilou nos empedrados
envolta num manto fantástico roubado à Tarde.
Ainda trazia colados nos ombros restos dourados
de Sol em despedida e, no bolso, pedaços
reluzentes da estrela da manhã.
Entrou em rodopio nos seres e levou-os para dentro dela
para encontrar os olhos na cobra da dança, no ventre, na fonte.
Para beber as mãos pelo corpo do outro corpo,
olhos fechados colados nas ancas de África e,
nesta claridade, dizer do íntimo ontem e das marcas.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

A Noite I

15
Queria viajar para Ocidente.
Não suportava a noite.
Há poucas semanas,
tinha sido apanhado desprevenido
por uma daquelas noites transparentes.
Fora uma noite sem máscaras.
Queria viajar para Ocidente, atrás do Sol,
manter o compromisso do fim de tarde eterno
onde tudo se mistura, flui, difuso e imaterial.
Não aguentaria outra noite
de desenho puro e lancinante das coisas.
Sabia do risco de dizer palavras definitivas.
Começou a correr com o Sol quase no ocaso.
Ainda conseguiu agarrar os últimos rosas
e violetas pendurados nos telhados baixos.
Atravessou as derradeiras estradas de nevoeiro
a transbordar de compromissos com o dia
que se desfazia lentamente, na miragem da estação de comboios.
Pensou que a Ocidente poderia ser possível
escapar ao desenho puro do corpo.
Correu pela plataforma em passos de pouca-terra e
ergueu-se no botão automático da porta sopro.
Havia um lugar à janela de onde contemplou o Sol oblíquo, quieto num infindável crepúsculo.
Corriam árvores e raras casas no ecrã, montanhas e nuvens.
Não se fazia noite e a calma desceu-lhe pelos ombros.
Muitas horas depois, numa estação da montanha,
subiu uma mulher de gorro azul.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Haikus

 HAIKU1
Um dia conto
A pele entrelaçada
E’o cheiro ganha

HAIKU2
Coisas belas sim
Num segredo húmido
Grito na maré

HAIKU3
Frio na alma foi
Mente e cheiros longe
Uma raiva luz