quarta-feira, 13 de abril de 2011

A Noite I

15
Queria viajar para Ocidente.
Não suportava a noite.
Há poucas semanas,
tinha sido apanhado desprevenido
por uma daquelas noites transparentes.
Fora uma noite sem máscaras.
Queria viajar para Ocidente, atrás do Sol,
manter o compromisso do fim de tarde eterno
onde tudo se mistura, flui, difuso e imaterial.
Não aguentaria outra noite
de desenho puro e lancinante das coisas.
Sabia do risco de dizer palavras definitivas.
Começou a correr com o Sol quase no ocaso.
Ainda conseguiu agarrar os últimos rosas
e violetas pendurados nos telhados baixos.
Atravessou as derradeiras estradas de nevoeiro
a transbordar de compromissos com o dia
que se desfazia lentamente, na miragem da estação de comboios.
Pensou que a Ocidente poderia ser possível
escapar ao desenho puro do corpo.
Correu pela plataforma em passos de pouca-terra e
ergueu-se no botão automático da porta sopro.
Havia um lugar à janela de onde contemplou o Sol oblíquo, quieto num infindável crepúsculo.
Corriam árvores e raras casas no ecrã, montanhas e nuvens.
Não se fazia noite e a calma desceu-lhe pelos ombros.
Muitas horas depois, numa estação da montanha,
subiu uma mulher de gorro azul.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Haikus

 HAIKU1
Um dia conto
A pele entrelaçada
E’o cheiro ganha

HAIKU2
Coisas belas sim
Num segredo húmido
Grito na maré

HAIKU3
Frio na alma foi
Mente e cheiros longe
Uma raiva luz

sexta-feira, 1 de abril de 2011

África

14
Chegou. Nos olhos sabor a sal e mornas dançadas no pó.
O frémito do sítio percorre-lhe o corpo.
Guarda nos seios memórias recentes de luz, demasiada luz para os seus olhos claros, de penumbras familiares. Ainda não consegue falar da cor da terra e dos homens sem um leve tremor nas coxas e, quando o faz, deixa a mão pousada no ventre de saudade intensa.
Comprou perfumes, fragrâncias indecifráveis, essências de mar e fogo que não consegue usar sem o vestido vermelho e preto que despe, quando sonha com o lugar.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Saharanila


13
Visitar teu corpo. Seguir os caminhos da tinta no desenho interior. Tocar o limbo da folha na humidade rosada. Dentro do rio, sorrir ou explorar pela primeira vez e lentamente uma gruta desconhecida, pousar os olhos nas inscrições rupestres enquanto as mão sem cordas, seguram o esperma e percorrem lentamente o planalto dos rins e as próximas elevações que escondem os seios. Deixar-se ir pelos rios subterrâneos ao encontro dos pensamentos albinos e, nos teus olhos, só ver branco imenso e extasiado quando o nosso olhar se encontra numa conversa sonora. Dos orgasmos, ficam marcas imperceptíveis que descansam no interior das células e a tarde vai célere ao encontro do quotidiano.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Casa maior

12
À deriva entre o luar e a madrugada localizo-vos pelo cheiro, sem saber do início do corpo que escorrega nas veredas da pele. Corpos-açafrão que exploram a geografia para se perderem nos mapas, barreiras codificadas que enxugam os rios na língua. Entro na porta escancarada dos dedos que exploram Vénus e me conduzem, por labirintos de saliva, à casa maior onde moram as mulheres desavindas. Deixo que me conduzas e atrás de ti confabulo a coreografia do corpo na música de cassetes antigas e dançamos.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Quase haiku


10
A luz,
o silêncio,
a pedra
janelas sobre o verde
janelas sobre a alma
o grito de prazer
as marcas no corpo e por dentro
morangos eróticos em string húmido
amar-te mais
prosseguir contigo
quero

11
O som puro das coisas
a voz redonda
memórias doridas de uma morte criança
espaços dentro do corpo
sémen e cal
palavras com dor por fora
lágrimas
a pedra lança os dedos para a luz

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Lava

9
São duas que a habitam puxando o corpo branco
e a gargantilha de prata e lava viva.
Imperceptíveis sombras esguias na alma
penduradas e de dias doridos se alimentam.
Almas lágrimas e riso de dentro.
Algum calor aflora.
Êxtase e a viagem torna-se anã e finda de si.
Tudo não partilha, apenas uma gota.
Que pouco e a sede tanta e a boca seca.
Que pouco e o tempo tão pequeno.
Voraz.
Cavalga o Sul, horizonte outro.
Lava. Menina.
Viva. Transfigura-se é nua que fica.
Recusa roupa e rasga-me o eu.